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quarta-feira, 26 de março de 2008

E a saga continua

Édi Prado - Sábado 29.03.08 –

Tudo estava indo tão bem. Alguma coisa, um instinto uma cisma me alertava que alguma coisa estava errada para estar tão certinho. Nós que pagamos a passagem e ainda somos obrigados a pular a roleta, sabíamos que o encanto ia acabar. Depois de três dias internado no Hospital de Especialidades, como quem ganha o sorteio de três diárias num cinco Estrelas. tudo desabou. A cirurgia não tinha data marcada para ser realizada. Meu pé calcificando com os ossos fora do lugar. E eu ocupando um leito enquanto dezenas de pessoas esperando uma vaga, para ter o sonho e a garantia que seria submetido a uma cirurgia, não importava quando. Conseguir um leito é como a salvação.
QUANTAS HISTÓRIAS
EXISTEM ASSIM?
Cheguei dia 29.03 ao Hospital de Especialidade (HE). Na portaria fiquei sem compreender a briga por pacientes, por parte dos médicos e a responsável pela admissão de pacientes. Pouco tempo estava no quarto 32. Uma marmita com mais de 400 gramas de carne, macarrão, arroz e salada de legumes. Um copo de sopa e uma talhada de melão. Antes me submeti a uma pequena entrevista de praxe. Se havia alguma recomendação sobre rejeição a alimentos ou remédios. Ao meu lado, Almiro, um velho navegante com 91 anos de idade, Vive em miração. Uma hora ele apontava um soiá (uma espécie de rato da mata) e ensinava a tirar a pele e assar na brasa com limão. Noutra puxava o colchão pra cima dele e arrumava o lençol, como se tivesse aprumando a vela. Ele chamava por alguém: João Gama num tom severo, como se fosse o filho dele. E exigia que o tirasse daqui. Não queria ficar ali. Irrequieto, passava a noite toda tentando escapar. Os enfermeiros cruzaram o lençol sobre o peito dele e amarraram as pontas na cama. Os gritos se alternavam: João, Gama, Djalma: Tirem-me daqui, implorava.
DEITA QUE EMPURRO
O véio Almiro, depois de 90 dias prisioneiro de uma cama de hospital, com o fêmur fraturado, aos 91 anos de idade estava cansado de ficar preso naquela cama. E como um prisioneiro que se preza, quando nem percebíamos, ele queria fugir. As pernas ficavam penduradas e ele esticava os pés para tocar o chão.
Camilo, acompanhante de Fernando, lá de Santana, com os mesmo problema que o meu, se dispôs a ajudar o véio a voltar para a cama e na tentativa de fazer com que ele permitisse trazê-lo de volta para o leito falava angustiado:Vamos, deita. Deita que eu empurro. Uma enfermeira ouvindo aquela arrumação olhou desconfiada. E o Camilo só queria ajudar o véio. E depois de mais uma frustrada tentativa de fuga, suplicava explicação: “O que fiz de tão grave para ser punido assim, amarrado no hospital?”
Pelas informações das enfermeiras o navegante está há mais de três meses internado, com fratura no fêmur. Por falta de autorização da família, os médicos temem realizar a cirurgia, devido os exames de Eletrocardiograma anunciar um complicador, que pode trazer risco cirúrgico. E o tempo passa e o velho fica aos cuidados dos enfermeiros. E bote atendimento nisso. Creio que nem parente o cercaria com tanto zelo, dedicação e paciência, como fazem os enfermeiros do HE.
Eu esqueci que era paciente a espera de uma cirurgia. Enfermaria impecável. Alimentação de primeira, remédios na hora certa, enfermeiros sempre atentos. Nota máxima nesse item. Depois de três dias, meu acompanhante, que providenciou minha internação, perguntou quando seria a minha cirurgia. O médico disse não saber, porque estavam programadas duas cirurgias de dois idosos, na minha frente. Minha mulher preocupada com a demora, temendo que meu pé calcificasse fora do lugar, uma vez que o acidente ocorreu no sábado, 22.03 e até dia 31, nem previsão havia?
Levou-me para o São Camilo, Hospital Particular. Fez empréstimos, se endividou além do que o salário pode pagar à vista. Mas internou-me lá e a cirurgia fora marcada para o dia 01.04 as 7 horas. E às 6:30 h o primeiro médico que chegou ao centro cirúrgico para auxiliar o médico titular da cirurgia, era o médico que estava com duas cirurgias no Hospital de Especialidades e por isso não podia realizar a cirurgia por lá. E fizeram o serviço e estou em casa me recuperando. Só não entendi esse não poder do médico atender no Hospital de Especialidades e poder atender no São Camilo, onde a cirurgia é paga. O que não considero justo é ficar num hospital público, ocupando um leito por três dias e com a certeza que ficaria mais dias internado, à espera de um cirurgia, que foi feita no São Camilo em uma hora e noutro dia estava de alta, enquanto dezenas de pessoas lotam o Pronto Socorro à espera de um leito no Hospital de Especialidades.

Como paciente que passou pelo Pronto Socorro e Hospital de Especialidade, nada a reclamar do atendimento. Mas ficar à mercê da boa vontade dos médicos que são pagos para realizar esse atendimento, alguma coisa está errada e certamente a administração do Hospital, nem a Secretaria de Saúde sabe que esse pequeno descaso, está tirando o brilho e a vontade do Estado em atender com dignidade e humanidade a população, que não tem como ir para um hospital particular.
E se houver alguma sindicância, ficarão mais surpresos, porque o meu acompanhante, que nem um momento se identificou, ou saiu-se com a famosa frase: “sabe com quem você está falando” é testemunha desses fatos e o depoimento dele pode ser decisivo para formalizar o descaso.
Édi Prado 25.03.08
No dia 22, sábado me animei para a tradicional “pelada” na UDV. O preparo começou uma semana antes. Retirei a chuteira virgem da caixa. Dei um brilho nela. Meu filho lamentava sempre que olhava para aquela caixa intocável, não ser o número dele. Deixa ela, aí” dizia em tom de promessa de retornar “aos campos”, provocando risos de minha mulher. Na sexta, antes de dormir, fiz uns alongamentos e besuntei as pernas com a pomada de Muirapuama e Mururé-Pajé, produto Made in IEPA. Sonhei até com os gols que fazia.
PESADELO E RECOMPENSA
Fomos para o terreno da UDV. Lá depois de colaborar com algumas tarefas da equipe do plantio, fomos para o campo. De tanto me ajeitar, colocar meia sobre meia, caneleira e outras macaquices, típicas dos “mascarados”, os que não jogam nada, mas adoram se enfeitar. Me dirigi ao campo. Mandaram esperar. As duas equipes de cinco já estavam em campo. Ninguém nem reparou na chuteira novinha, cheirando a talco. Sentei ao lado das meninas, que faziam a torcida, mas que também esperava a vez de entrar. “Estou igual a uma onça”, brinquei: “Só pinta e bafo”. A Rejane Maurício fez a foto. Registrou o grande momento do retorno.
ENTRANDO EM CENA
Chegou minha vez. Faltava um para completar o time. Recontei os dois times e levantei. Foi aí que me viram fantasiado de jogador. Ganhamos a primeira, a segunda e a terceira partidas. Na quarta, enfrentando um misto composto por quatro mulheres e um homem, estávamos perdendo por um à zero. O tempo de 10 minutos estava em contagem regressiva. Íamos sair. Que vergonha perder assim, sem pelo menos se assanhar para, no mínimo empatar?
PIQUE MAL DADO
Resolvi tomar a iniciativa. Dei um pique, como se fosse um jovenzinho de 18 anos, sem lembrar que chovia e o “campo” não é tão lisinho assim. A perna esquerda escorregou a e direita travou num montinho de capim e lama. Ouvi um som de truck e de um graveto seco quebrando. Olhei meu pé e ainda vi quando os ossos do tornozelo se deslocaram espichando a pele e depois retornando para o lugar.
EU VI E SENTI A DOR
Quebrei meu pé, disse sem estar acreditando no que via, ouvi e sentia. O Salomar Carvalho, que é bombeiro, tratou de avaliar os danos, retirando a meia e dando o diagnóstico: Quebrou. Esse não é um caso para a Dona Gasparina, uma famosa “puxadeira e benzedeira”. Meu filho, Felipe e a Rejane levaram-me ao Pronto Socorro. Um assistente de nome Fred ou Fredson, um som assim, chegou com uma cadeira de rodas. A Rejane foi pra fila. Havia umas dez pessoas na frente. Em pouco tempo veio o encaminhamento para o médico, um gigante de bata branca, parecia um gaúcho, brincou ao atender-me: Batendo bola? Rapaz você devia estar lendo um bom livro... Fez as perguntas de praxe e encaminhou-me a sala de Raio X. O Fred sempre “guiando” a cadeira de rodas. Depois do Raio X, retornou ao médico “Gaúcho”, que juntamente com o médico traumatologista, Paulo Sérgio S. Vilaça, ao “lerem” a chapa, foram taxativos: É caso de cirurgia! Eu já estava com frio, tiritei.
QUER REMÉDIO?
O Fred levou-me à sala do Dr. Vilaça. Perguntou se eu podia tomar tal e tal remédio. Detesto remédio. Até num caso desses... Estava doendo muito. Não podia recusar a ajuda médica. Orientou ao enfermeiro para que imobilizasse o meu pé. Encaminhou-me para os exames de eletrocardiograma e Raio X do tórax e dando autorização para os exames de sangue e urina na segunda-feira. “A cirurgia está marcada para quarta-feira, 26.03 às 7 da manhã. Mas não se esqueça de tomar o remédio”, enfatizou meio bravo. Isso tudo sendo guiado pelo paciente e a atencioso Fred. Eu vou continuar chamando-o assim, não ouvi direito o nome dele. Levou-me até lá fora onde entrei no carro. Disse um muito obrigado, como se tivesse acabado de sair de um hotel 5 estrelas e esquecido de dar a gorjeta para o garçom.
NOTA MIL
Incrível! Nunca pensei que um dia tivesse que ir para um pronto socorro municipal, muito menos ser atendido como se eu fosse à pessoa mais importante do mundo, com atendimento de primeiríssima classe, com médicos e assistentes treinados, atenciosos e educados. E não era porque eu sou jornalista, como forma de “quebrar a língua dentro da própria boca”. Até porque a minha identidade que a Rejane levou para me registrar, ainda do tempo do Amapá Território e tem o singelo nome de Edevonildo Nazaré Prado Ribeiro. Pouquíssimas pessoas sabem que este nome é do Édi Prado. Além disso, poucas pessoas agora, sabem que sou jornalista. Portanto, nenhuma ligação com a suposta forma de agradar a ‘imprensa”. E nunca ouvi ninguém reconhecer o trabalho daquela equipe médica que recebe centenas de pessoas, vítimas das mais diversas traumatologia. Eu sou testemunha de um atendimento humano, de qualidade e eficiência. Eu agradeço publicamente a atenção a mim dispensada. Em especial ao “motorista de cadeira de rodas”, que não me abandonou nem um minuto e graças a ele e a toda equipe médica e assistentes, saí “pronto” para encarar com segurança a cirurgia marcada para hoje (26.03.08).
Nem tudo está perdido. O Diretor (a) do Hospital de Emergências ou Pronto Socorro, como é conhecido, meus parabéns pela equipe que têm. Posso até ter sido como dizem: A exceção. Mas eles, os funcionários foram à regra de servidor público, que é pago para servir ao público e o fizeram com maestria, humanidade e presteza. Obrigado, por tudo.
A HORA E VEZ DA BUROCRACIA
Acordei cedo. (26.03.08). Cheguei ao Hospital de Emergência bem antes das 7 h, conforme havia marcado o médico e confirmado na portaria, o dia, hora e local da cirurgia. Apresentei-me e mostrei o receituário médico. - Não é aqui é ali nos “acidentados”, disse a atendente. Lá nos “acidentados”: - Não é aqui. É ali, disse a outra atendente mostrando o mesmo guichê que acabara de sair, distante menos de um metro de um buraco no vidro para o outro. Cocei a cabeça. Deu coceira nas costas, também. Novas explicações. Senta aí e aguarda ser chamado, sentenciou a do guichê dos acidentados. Era 08h20min h e ninguém chamava ninguém. Minha mulher foi conversar com um funcionário. Sintetizou a conversa. – É lá em cima. Sobe, dobra a direita e fala com a moça lá. A moça lá de cima mandou descer e falar com a moça de baixo. Mudamos a rota e fomos direto à clínica de traumatologia. O banquinho de espera estava lotado. Na porta um aviso: Seja educado. Bata na porta e espere ser atendido. Minha mulher bateu na porta e ninguém respondeu nem atendeu. Outro cliente nem bateu e foi entrando e voltou para o lado do banquinho cheio. Minha mulher repetiu o gesto. Deixou lá “a autorização para a cirurgia”. Esperamos ser chamados. Não vale o que está escrito na porta. O aviso é só decorativo.
O médico, Dr. Joel, atendeu e explicou todo o procedimento e foi logo advertindo: - Tem que esperar abrir vaga para ser internado aqui para depois esperar abrir vaga no Hospital de Especialidade, para depois então esperar vaga para fazer a cirurgia. Que alívio! Mas todas essas informações, não deveriam ser repassadas quando o paciente saísse do atendimento?
... TU SABES...
O sonho transformou-se num pesadelo e nos colocou num labirinto entre vários Minotaurus. Estava indo tão bem para ser realidade. Mas no sábado foi real. Fui atendido até melhor que em clínica particular. Podem acreditar. O problema é o dia seguinte. Compreendi que os burocratas de plantão estão tão mecanizados e fazendo igual todos os dias, que eles acreditam que o paciente, que nunca entrou num hospital, deva saber os termos técnicos, o nome das doenças, as siglas das salas, onde fica a sala disso, daquilo e daquilo outro. E perguntar, parece até ofensa: Tu não sabes nem onde fica a sala de traumatologia, do Raio X, do eletrocardiograma? O paciente fica traumatizado só em pensar no que vai responder e só não desiste porque não tem outra alternativa. Peguei meu pacote de exames e fui procurar a solução por outros caminhos. O gargalo na melhoria do atendimento pós-emergência está na falta de informação dos funcionários burocráticos. Eles precisam saber os caminhos do que é possível atender e informar às pessoas, sem criar expectativas que geram revoltas e desconfortos. Por tudo valeu a pena passar por essas experiências. Saber degustar a transformação da água pro vinho de qualidade e retornar do vinho a água natural e com copo descartável usado. Nem tudo é carnaval como também nem tudo é quarta-feira de cinzas. Será que vai chover ou fazer sol? Melhor é prevenir-se para as duas situações. E se nevar no Amapá?

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