Amazônia ao vivo !

domingo, 30 de dezembro de 2007

Fabinho, o mais novo campeão



Fotos: Édi Prado



Texto: Édi Prado -12/07
Fábio de Carvalho Nunes, 49 anos, portador da síndrome de Down. Nada de especial se ele não fosse especial. Poucos jovenzinhos, considerados normais têm tanta disposição, garra, determinação e ousadia como esse garoto chamado Fabinho. Ele estuda na APAE. Todas as manhãs vai sozinho esperar o ônibus da Escola. No retorno, sozinho desce na parada certa. Atravessa a rua. Conhece muito bem a cor do semáforo que o “credencia” a atravessar na faixa de pedestre. Se o sinal está com defeito ou se considerar que está demorando além da conta dele, não há problema. Saca do bolso um apito e tasca um silvo longo. Todos os carros páram. Ele vai para o meio da rua, levanta os braços, atravessa e dá outro apito, “liberando” o trânsito. Ninguém xinga. Ninguém diz nada. No máximo sacodem a cabeça aliviada, por não ser um guarda de trânsito de verdade.
Às 13 h está paramentado com gravata e “calça social” e sapatos impecáveis. Antes de sair verifica a caixa de engraxate. Confere todas as latas de graxa, a flanela e as escovas para sapato e as dentais, usadas para espalhar a graxa em lugares mais difíceis. Separa o que vai levar nos bolsos e fica esperando uma carona. Caso não apareça, ele vai a pé sob o escaldante sol, em direção ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE). É lá que atua. A engraxada custa R$ 1,00. Não aceita moedas. Para ele só tem valor a nota em cédula de R$ 1,00. Também não adianta dar uma nota maior. Não aceita. Saía sempre às 17 h. Saía. Porque há seis meses quando começou a freqüentar a Academia de Judô Sei Shin, nos altos da Flex Gyn, na Rua Antonio Coelho de Carvalho, centro, por volta de 15 h ele está de volta para casa dele, na Rua Hamilton Silva, 1197, no Bar da Euda, em frente à Escola Bartoloméia. Antes das 17 h ele estava com o quimono branco e faixa branca, ansioso a espera do motorista “contratado” para levá-lo à Academia, onde as aulas de Judô começam as 19 h.

Estava de quimono branco. A partir do dia 21.12 ele recebeu da D.Euda um quimono azul “zerado”, como ele diz, unindo o indicador com o polegar, formando um círculo e sacode as mãos com os três dedos restantes de cima para baixo e exibindo a nova faixa cinza. Ele foi um dos alunos que trocou de faixa, motivado pela disciplina, pontualidade, dedicação e muito esforço nos treinos. “O Fabinho merece ser graduado. Ele é um exemplo de que é possível superar todas as barreiras, vencer todos os preconceitos e por não conhecer o que significa desistência”, são unânimes os Mestres Adriano e Fábio Lins e Jadir Oliveira.

No mês passado, Fabinho foi capa, juntamente com a Sasha, Rafael e Rogério, todos Down, do trabalho de TCC das jornalistas, Fernanda Picanço, Kelly e Rubilne Alencar: -Sou Dow, Muito Prazer- Mas as atividades de Fabinho não páram por aí. Todo o sábado, religiosamente, bota a “beca” e vai orar numa Igreja lá no bairro do Trem. Ele também exagera nos dotes dele. Conta que é o regente do coral da Igreja. Ele gesticula e ensina como é que se rege o coral.

Fabinho é realmente é o mais novo campeão: Campeão de inclusão numa academia de judô, na Igreja, na Escola, na rua, no supermercado quando vai comprar a graxa dele. Leva o dinheiro trocado, fica na fila enquanto não pedirem para “ele passar”. Quando fazem isso ele agradece. É campeão quando contribui para que as pessoas não o temam nem os iguais a ele, quando consegue simpatia e amizade e quando percebe que é amado e protegido pela mãe adotiva, D. Euda Nunes e todos os que o conhece. Com tantos motivos que renderiam uma boa matéria nas emissoras de televisão, os pauteiros não visualizaram importância de um menino Down, 49 anos, trocar de faixa numa academia de judô.
Fabinho com 49 anos “veste” a faixa cinza. Pela ordem virão: azul, amarela, laranja, verde, roxa, marrom e finalmente a preta. Certamente que nessa ordem, ele não vai emplacar até a Preta. A faixa cinza simboliza todas as cores, todos os Dans. E Fabinho já atingiu a categoria de Mestre em ensinar que tudo é possível quando a mente não pequena nem velha. E que a juventude da mente, não é a cronologia da idade, é o templo do espírito.

Nenhum comentário:

NOTICIAS DA AMAZÔNIA

.::Notícias