Euclides Farias
Foi no mercado, cortando carne e palavras, que o açougueiro Antonio Juraci Siqueira, hoje filósofo e escritor morando em Belém há muito tempo, começou a versejar. É um dos grandes nomes nacionais da literatura de cordel. Trovador de mão cheia. Corriam os anos 70 e, no concorrido burburinho do Mercado Central, lá estava Juraci em seu talho. Um olho na verba, outro no verbo.
O exato tempo que o tempo tem separa o açougueiro do autor de “Versos Sacânicos”, lançado em Belém no rastro da intolerância do aiatolá Khomeini, o líder religioso e dirigente do Irã que condenou à morte o escritor anglo-indiano Salman Rushdie, acusado de blasfêmia. Fosse o sarcástico Juraci nativo daquelas bandas, já teriam lhe posto o pescoço na guilhotina.
Lâmina, Juraci pesava bem a carne e ao freguês franqueava a trova, algo assim, mal-comparado:
Esse quilo e meio de chã, leve com a maior satisfação
Foi no mercado, cortando carne e palavras, que o açougueiro Antonio Juraci Siqueira, hoje filósofo e escritor morando em Belém há muito tempo, começou a versejar. É um dos grandes nomes nacionais da literatura de cordel. Trovador de mão cheia. Corriam os anos 70 e, no concorrido burburinho do Mercado Central, lá estava Juraci em seu talho. Um olho na verba, outro no verbo.
O exato tempo que o tempo tem separa o açougueiro do autor de “Versos Sacânicos”, lançado em Belém no rastro da intolerância do aiatolá Khomeini, o líder religioso e dirigente do Irã que condenou à morte o escritor anglo-indiano Salman Rushdie, acusado de blasfêmia. Fosse o sarcástico Juraci nativo daquelas bandas, já teriam lhe posto o pescoço na guilhotina.
Lâmina, Juraci pesava bem a carne e ao freguês franqueava a trova, algo assim, mal-comparado:
Esse quilo e meio de chã, leve com a maior satisfação
Só não esqueça que fico
Nessa minha luta sã
Pensando que não é vã...
Fortuna não amealhei
Mas muitos versos talhei
E assim vou enriquecendo
Manuseando a inspiração.
Herança do menino de Cajary, no Afuá, o talento de Juraci Siqueira viajaria do Mercado Central para a Universidade Federal do Pará e, de lá, às praças, bares, páginas de livros, revistas e jornais ou a qualquer lugar onde houver alguém disposto a comprar, baratinho, uma porção de poesia. A indefectível bolsa tiracolo de Juraci carrega tesouros que renomados trovadores brasileiros conhecem de cor e salteado, como em Versos Sacânicos.
Papai Noel comunista...
Êta, mentira indecente!
O velho é capitalista
fodendo a vida da gente!
A noite logo retorna,
e o Sol, cansado, desmaia
e o mar passa a língua morna
na vulva branca da praia...
Reinventar o Mercado Central, pondo sua história em dia com gerações e levando a moçada a gastar algum tutu no Bar Du Pedro, Salão Diplomata, Armarinho Brasil (Só falta o Rei da Roupa e a Livraria Martins!), eis aí um movimento musical singular, inteligente.
Aldeia e a um só tempo universo, o mercado revisto e sampleado por músicos que se importam faz a Macapá de Alcy Cavalcante, Julião, Oscar Santos, Aracy Mont'Alverne, Nonato Leal&Cia se reencontrar, impunemente como convém, com sua vocação ao verso, à cantoria e ao encantamento que deles emanam.
Aldeia e a um só tempo universo, o mercado revisto e sampleado por músicos que se importam faz a Macapá de Alcy Cavalcante, Julião, Oscar Santos, Aracy Mont'Alverne, Nonato Leal&Cia se reencontrar, impunemente como convém, com sua vocação ao verso, à cantoria e ao encantamento que deles emanam.
Adelante!
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